terça-feira, 19 de julho de 2011

Uma visão sobre a relação entre músicos - Parte II - O "dar certo"

Fala galera?
Depois de longos meses, eis que retorno aqui ao meu blog, com a segunda parte deste artigo, sobre relacionamentos entre músicos. Infelizmente minhas atividades não permitiram que esta segunda parte fosse escrita antes. Peço desculpas à todos pela demora.
Não poderia também deixar de agradecer pela enorme repercussão que tive com a primeira parte, com muito feedback positivo a respeito. Espero de verdade poder ajudar.

Bom, vamos lá:
Um fator crucial para a maioria dos músicos que resolvem iniciar uma banda de Rock, Hard ou Metal, é o famigerado fator "dar certo".
Um dos muitos fatores que diferenciam o Rock de outros estilos, é que o Rock possui uma enorme capacidade de gerar no ouvinte uma esperança, um sentimento, de que ele pode ser igual ao seu ídolo um dia. Isto é algo praticamente unânime. Tanto que uma das perguntas mais clichês que são respondidas em entrevistas por músicos famosos é: "Quais são suas influências?".
Ou seja, o músico responde ali, quais são os outros músicos que vieram antes dele, que o influenciaram, na sua forma de tocar, cantar, compor, agir, etc. Geralmente são músicos do mesmo instrumento (influenciador e influenciado). Um exemplo bem interessante seria Jimmy Page do Led Zeppelin que foi uma enorme influência para Joe Perry do Aerosmith que por sua vez foi e é uma enorme influência para o Slash (Guns N´Roses, Velvet Revolver) e assim por diante.
Sendo assim, o fã de rock não raro se sente instigado a começar ele também a sua própria banda de Rock ou Metal, e seguir os mesmos passos do seu ídolo. Alguns chegam a exagerar nesta influência, querendo soar e literalmente ser igual aos seus ídolos, na forma de tocar, cantar e agir. Estes normalmente optam pelo trabalho cover única e exclusivamente. (Pretendo falar disso em outro momento).
Bom, voltando à nossa questão, onde isso interfere no relacionamento entre músicos?
Simplesmente por que não raro, rolam discordâncias internas a respeito destas influências. Na primeira parte, eu mencionei o fato de músicos não se entenderem quanto ao som que gostariam de fazer, e isto muitas vezes ocorre por que as influências de um, não batem com as do outro, ou um determinado músico da banda, simplesmente "impõe" aos demais que a banda seguirá a influência X apenas. Ou seja, as portas estão fechadas para outras referências. Cabendo então aos demais músicos, aceitarem ou partirem para outra.
Agora, e o "dar certo"? Como que fica?
Uma vez, que o músico resolveu seguir os mesmos passos do seu ídolo, e deseja ser igual a ele, muitas vezes, ele tem a idéia de que a banda só irá "dar certo", quando ele atingir uma visibilidade semelhante à do seu ídolo. Ou seja, quem curte James Hetfield do Metallica, só vai achar que seu trabalho deu certo quando ele vender mais de 100 milhões de discos, e fizer turnés mundiais monstros, de dois anos e meio, como foi a turné do Black Album entre 1991 e 1993. O mesmo se aplica ao fã de Axl Rose, e assim vai.
Os fãns de Heavy Metal em geral são exigentes. Eles não gostam de se "contentar com pouco". Alguns se acham tão talentosos e tão no direito quanto seus ídolos, e por isso alguns deles dedicam boa parte de suas vidas para alcançarem algo semelhante ao que os ídolos alcançaram.
O problema que eu particularmente vejo é que estes músicos estão aí dedicando suas forças e energias, tentando seguir a sombra de um músico que já existe ou existiu, e não se dão conta de que as chances deles alcançarem semelhante posição é praticamente zero. A chance matemática de que isso venha acontecer é algo tão distante de qualquer realidade que podemos considerar como algo praticamente nulo. O tempo começa a passar e quando o músico começa a se dar conta de que ele já não tem mais 20 anos e que ele precisa começar a batalhar pela sua vida, arrumar um emprego que lhe traga renda, conseguir uma boa formação, ele começa a se dar conta de que o sonho realmente é algo distante. A ilusão começa a tomar forma, e muitos descontam esta frustração logo em quem? Nos companheiros de banda. (Que por sinal, muitas vezes o apoiaram e estiveram ali, tocando as músicas dele e servindo de suporte para o seu trabalho).
Eles passam a ser os culpados, ou pelo menos são os primeiros a sofrerem as conseqüências de uma ilusão pessimamente fundamentada de um, que jurou que seria igual ao ídolo um dia.
Muitos não param para imaginar o seguinte: O meio artístico não precisa de outro Axl Rose, ou outro James Hetfield, outro Dave Mustaine, etc. Estes já estão lá com seus lugares conquistados e o meio não precisa de outros iguais. Estes músicos, ao invés de fazerem um bom uso de suas influências e tentarem estabelecer um trabalho autoral de qualidade, com cara própria, decidem seguir os passos dos ídolos a qualquer custo, e na esmagadora maioria das vezes, vão dar de cara com o poste na próxima esquina.
Há pouco tempo, aqui em Belo Horizonte, eu estive mais envolvido com o chamado meio "Hard Rock", ou seja, o circuito de bandas, que seguem a linha de outras como: Bon Jovi, Skid Row, Motley Crue, Ratt, Poison, Guns N´Roses, e as demais bandas da década de oitenta, que marcaram época com um visual bem característico, como cabelos espetados, homens utilizando artigos femininos nas roupas, etc.
Foi muito fácil reparar que neste meio, esta ilusão é algo muito presente. E passados poucos anos, atualmente eu não vejo mais a maioria das bandas e dos personagens nelas envolvidos que até pouco tempo, tinham certeza de que caminhavam rumo ao estrelato e lá iriam dividir espaço com seus ídolos, ficar milionários, ganhar muitas groupies, e ficarem famosos.
O mais interessante disso tudo é que eu estive ali, mas nunca consegui ver esta distância que colocam entre o Hard Rock e o Heavy Metal. Para mim, ambos sempre foram estilos irmãos, que caminharam lado a lado. O próprio Motley Crue, quando começou em 81, não se encaixava em nenhuma categoria, por que o chamado Hard Rock ainda não havia estourado. (fonte: whiplash.net). O guitarrista Slash, comenta em sua autobiografia que foi recusado para ser guitarrista do Poison, pois não atendia ao "conceito visual" deles. Ele comenta que foi muito mais perguntado a respeito de marcas de roupas que usava, do que a respeito dele como guitarrista. Ironicamente, pouco tempo depois, Slash estoura com o Guns N´Roses, mesmo sendo do jeito que era. Enfim, eu hoje toco Heavy Metal, mas comecei curtindo Guns e posso tocar Hard amanhã sem problemas, por que amo ambos segmentos.
Então eu acho que esta é uma boa questão para deixar-mos no encerramento deste artigo.
Afinal de contas, o que é "dar certo"?
Seria única e exclusivamente vender milhões de álbuns, fazer turnés mundiais altamente rentáveis, ter um bom contrato com uma gravadora major, poder comprar mansões, e ficar milionário?
Se for-mos analisar, quantos músicos devem existir no mundo inteiro, e dentre estes, quantos devem viver esta realidade citada?
O conceito de "dar certo", precisa ser profundamente refletido por todos aqueles que querem lançar um trabalho na música, e em especial dentro do Rock. Você conseguir fazer os seus shows na região onde reside, conseguir um certo número de plays no myspace e youtube, pode ser também uma boa vitória a curto prazo, mesmo que não venham os contratos e as turnés mundias. 
Bandas em formação, ou inicio dos trabalhos, ou mesmo àquelas que já são iniciadas. Procurem por sua própria identidade. Saiba bem a diferença entre servir-se da influência e serví-la.
Faça o SEU trabalho! O trabalho do seu ídolo já foi feito, e está aí para quem quiser absorver. Eu sou um fã inveterado de Guns N´Roses e Metallica. Conheci ambas as bandas no início dos anos 90, e até hoje as tenho como minhas favoritas. Nada irá mudar isso. Mas eu sou eu, e eles são eles. Eu os amo, mas eu sinceramente amo o meu trabalho ainda mais.
Se irei me tornar igual a eles em termos de tamanho? Certamente não. As circunstâncias são completamente diferentes e eu não estou preocupado em andar pelo mesmo caminho de tijolos amarelos que eles. Todos nós temos o nosso próprio caminho, como músicos. Se você acredita que seu trabalho possui qualidade, nunca perca a fé nisso. Procure conquistar aqueles que assim como você gostam da música como ela é, e possuem ouvidos para ouvir, e não simplesmente roupa para vestir, ou cabelo para usar.
Situe-se no seu tempo. Viva o aqui e o agora. Faça bom uso da sua nostalgia, mas nunca esqueça de que o que passou, não voltará mais. E talvez daqui a um tempo, você se lembre dos tempos atuais com saudades e se arrependa de não ter vivido o agora com a devida intensidade que poderia, por que vc estava preso ao passado. E por isso, talvez só enxergue o presente, daqui a um tempo, quando ele já tiver virado passado.
Acho que roqueiros de um modo geral possuem uma grande dificuldade em viver o presente. Quem vive de passado é museu, e roqueiros muitas vezes se fazem de peças de museu ambulantes, que saem por aí, como se estivessem em Los Angeles no ano de 1986.
Se o presente não lhe agrada, faça dele algo melhor, por que não? E que tal usar a sua música para isso?
Abraços metálicos e até a próxima!